27 de setembro de 2013

porto de abrigo. 

o céu escuro e as nuvens cinzentas marcavam o inicio do outono. a chuva caia torrencialmente, e tudo o que era vidro ficou embaciado. encostei a minha cabeça a janela, e escutei por breves momentos a chuva a cair, era a sinfonia perfeita entre a chuva e o meu silêncio interior. provavelmente, seja um dia banal, como tantos outros, em que te escrevo. e talvez este seja mais um texto, que nem iras ler, por nem sequer saberes da existência de todos os outros, que te escrevi. porém, hoje mais do que antes, sinto que tenho de fazer isto, preciso de te proferir todos os agradecimentos existentes, e até encontrar uma brecha para os inexistentes. começo por confessar que é bastante trabalhoso escrever sobre ti, pois durante todo este tempo, sempre tentei traçar-te em palavras, e nem as mais bonitas ou robustas seriam dignas de tal feito. cada vez que fecho os olhos, o medo invade o meu mais profundo ser, fico totalmente cega, o imaginável enlouquece-me e procura devastar toda a minha alma, assim como todos os meus sonhos são arruinados por meros receios. sinto-me assim, frágil. a única coisa que consigo mostrar é a minha fraqueza, as minhas lágrimas e a minha dor. são tudo feridas, agora desprotegidas, onde qualquer um pode cravar o dedo e causar a pior dor de sempre. sinto como se fosse perdendo pedaços de mim, ao longo do caminho. porém, no meio desta turbulência diária, ainda existe uma coisa boa, tu. quando o meu mundo está prestes a desabar, aqui estás tu para o segurar. quando as minhas mãos e pernas já não se movem, aqui estás tu para me fazer movimentar. quando perco o sentido de tudo, quando o meu coração bate lentamente, quando cada suspiro que dou, me torna mais fraca, aqui estás tu para me puxar de novo a vida. já perdi conta a todas as vezes, em que ficaste do meu lado, quando todos simplesmente desapareceram. perdi a conta a todas as lágrimas que me enxugaste neste últimos dias. a todas as tuas palavras que me acalmaram. a todos os sorrisos que albergaste, que de certa forma fizeram-me sorrir com eles. tens sido o meu porto de abrigo, o meu maior apoio, o meu pilar, tens sido tudo. nunca fui de demonstrar o que sinto, admito que é bastante custoso para mim. e mesmo não sendo demonstrado, há gestos que estão gravados no meu coração, e que vão lá perdurar sempre. tu consegues mostrar-me sempre o lado positivo de tudo. tu vens, e aquela dor no peito diminui. consegues arrancar-me aqueles sorrisos que, quando transbordam, não cabem no corpo e saem por palavras ditas sob o luar. a verdade é que tu consegues limpar todos os arrufos que ainda existem dentro de mim. consegues decifrar todos os meus silêncios que pedem um abraço, e todos os meus gritos que quando te mandam embora, imploram para que fiques. cada vez que me sinto só e assustada, olho para o lado, e lá volto a encontrar-te, pois és tu que me acompanhas em todas as viagens que alguma vez fiz. és tu quem partilha comigo tudo o que mundo oferece e retira. todas as derrotas e conquistas. todos os medos e inseguranças. todas as duvidas e certezas. és tu quem me acompanha com todo o sofrimento, e és tu quem me ajuda a deixar para lá a solidão e o medo. és tu quem me mostra que o tempo somos nós que o fazemos, que não adianta contar os segundos pelo relógio, se estivermos vazios. que quando não estou não há tempo a perder, porque o teu tempo sou eu, e que quando não me tens o tempo é vazio. é por isso que amo todo este nosso tempo juntos, e quero fazer com que os próximos segundos sejam contados do teu lado, a fazeres-me mimos no cabelo. a chuva voltou a cair, toda a humidade da janela, tocou nos meus ombros. uma hora passou-se e eu continuei a apreciar a chuva, até porque gosto. acalma-me e faz-me pensar em ti. o vidro começou a embaçar e lá escrevi a nossa data. apesar de ter andado longe de tudo, espero que amanhã venhas. espero por ti ansiosamente naquele banco de jardim, para abraçarmos o frio que vai chegar.