meu anjo.
olha para mim, enxuga essas tuas lágrimas de cansaço e de tanta dor, de tanto medo. não tenhas mais medo, já vais puder dormir finalmente. os primeiros dias vão custar, aqueles vidros que se partem na tua mente, que fazem um barulho horrível e que te atormentam, um dia vão passar, eu sei que vão. são apenas memórias que foram esquecidas, que passado este tempo todo estão a ser recordadas, reencontradas. eu sei que o barco está a cair aos pedaços, mas meu bem não remes. porque ao ver-te remar, dá-me vontade de remar contigo, e eu não posso. não remes sozinho, não iria dar, iria ao fundo. a cada passo que damos sinto que te estou a perder, e de certa forma estou porque vou levar-te para ires de volta para o teu mundo e saíres do nosso. eu sei que achas que estou desligada e que não confio totalmente em nós, mas um dia eu disse-te que não sou boa a demonstrar o que sinto, acho que agora sabes que estava a ser sincera. se pudesses entrar dentro de mim irias entender que te dou imenso valor, que tenho total confiança em ti, que me orgulho de ti e acima de tudo ias entender que cada amo-te que ouviste vindo de mim foi provavelmente a coisa mais sincera que disse. sei também que sou uma confusão, sei que entrei na tua vida e que desorganizei tudo, sei que já disse imensas palavras que te magoaram, mas não o fiz por mal, prefiro magoar-me a mim do que te magoar a ti. quanto mais tento tirar-te da cabeça mais tu insistes em permanecer no meu pensamento, quanto mais quero apagar as memórias, mais fortes elas se tornam. quanto mais tento fugir de ti, mais perto te sinto. tento fazer as coisas e nunca dá certo, acontece sempre o oposto daquilo que eu finjo querer. não esqueci os nossos planos. não esqueci o plano de fugirmos para o nosso cantinho. não esqueci o plano de viajarmos pelo mundo, só nós os dois. não esqueci o plano de deixar o nosso cadeado na Pont des Arts. não esqueci as promessas de ficarmos juntos até ao fim. não esqueci as promessas de permanecermos unidos em qualquer momento. as promessas de evitarmos qualquer tipo de magoas. não esqueci todos os sorrisos trocados e lágrimas partilhadas. não esqueci a forma como nos reconciliávamos, no fim de cada discussão. não esqueci as tardes, as noites e até mesmo as ultimas manhãs. queria saber desligar as emoções mais dolorosas e guardar as melhores comigo. nem tudo na vida é como nós queremos, mas, eu gosto de imaginar que as coisas um dia poderiam ser exactamente como eu quero. e se assim fosse, não existiria esta dor inigualável que me abalroa o peito a cada dia que passa longe de ti. preferia imaginar-te, mais uma vez, encostado ao meu peito, sabendo que estou segura perto de ti. já não sinto o calor do sol a bater-me no rosto. não sinto diferença entre o dia e a noite, nem sequer tenho vontade de olhar para o sol ou para a lua. não sinto, nem sei se tenho vontade de sentir. passei as últimas horas num canto, a torturar-me com memórias. a chorar ao relembrar tudo. a tentar sentir algo mais para além da solidão. é difícil. e custa imenso quando temos de fazer algo e não percebem. custa imenso quando fingimos que estamos bem e ninguém percebe que não estamos. custa ver que tens esse pensamento estúpido de que eu não me importo. porque na verdade, eu importo-me. mas eu escolhi assim meu bem, e só espero que um dia consigas entender-me. espero que um dia olhes para trás e me vejas como alguém, que de certa forma, fez tudo para seres feliz. já te pedi que saísses da minha vida vezes sem conta, se foste capaz de o fazer uma vez, acredito que és capaz desta também.
